Clínica 10 min de leitura

Cimentação Adesiva em Restaurações Digitais: Protocolo por Material

Por Dr. Elton Dias e Dra. Aline Calvete — Instituto Porto Smile

Cimentação de restauração cerâmica com campo isolado — protocolo adesivo em restaurações digitais

O consultório digitaliza, o laboratório desenha, a fresadora ou a impressora fabrica — e depois, numa etapa que dura poucos minutos e recebe uma fracção do tempo de planeamento, é feita a cimentação adesiva da restauração. É aqui, não no desenho nem na escolha do material, que acontece a maioria das falhas em restaurações CAD/CAM: descolagens que surgem semanas depois, sensibilidade pós-operatória sem causa aparente, restaurações que "não pegaram" apesar de um ajuste marginal perfeito.

O erro mais comum em cimentação adesiva não é escolher o cimento errado — é usar o mesmo protocolo para materiais com química de superfície completamente diferente. Dissilicato de lítio, zircónia e resina impressa de alta carga exigem tratamentos distintos, e tratar todos da mesma forma é a explicação mais frequente por trás de insucessos que, à primeira vista, parecem não ter relação óbvia com o passo que realmente falhou.

Porque é que o protocolo depende do material

O dissilicato de lítio tem um teor de sílica entre 50 e 60% — uma matriz vítrea que o ácido fluorídrico dissolve, criando microporosidades que permitem retenção micromecânica ao cimento resinoso. A zircónia tem menos de 1% de sílica: não tem matriz vítrea para o ácido dissolver, pelo que o ácido fluorídrico simplesmente não funciona nela. A resina impressa de alta carga é uma terceira química — uma matriz polimérica reticulada que não responde a nenhum dos dois tratamentos da mesma forma, e cujo protocolo de adesão ainda está a consolidar-se na literatura.

Tratar os três materiais com o mesmo protocolo — normalmente o que a equipa já domina de um deles — é a causa mais comum de descolagem que se vê em restaurações CAD/CAM. Não é um problema de cimento, é um problema de superfície.

Vale notar que esta decisão começa antes da restauração chegar à clínica: quando o desenho é planeado em fluxo digital com o laboratório, o material já fica definido na fase de proposta, o que permite preparar com antecedência o protocolo de cimentação correcto em vez de o decidir apressadamente no dia da entrega.

Dissilicato de lítio: o protocolo estabelecido

Na superfície interna da restauração: ácido fluorídrico a 5–9% durante cerca de 20 segundos, lavagem abundante com água, secagem, e aplicação de silano durante cerca de 60 segundos, deixando o solvente evaporar por completo antes de cimentar. No dente, o condicionamento é feito com ácido fosfórico a 37% — 15 segundos em dentina, 30 segundos em esmalte —, seguido de lavagem e secagem controlada, sem desidratar a dentina.

A escolha entre cimento fotopolimerizável e dual depende essencialmente da espessura e da opacidade da peça: peças finas e translúcidas cimentam bem com fotopolimerizável puro, que oferece maior estabilidade de cor a longo prazo; peças mais espessas ou opacas exigem um cimento dual para garantir polimerização completa nas zonas que a luz não alcança bem.

Tratamento de superfície com ácido fluorídrico e silano numa restauração de dissilicato de lítio

Ácido fluorídrico a 5% seguido de silano — o protocolo estabelecido para cerâmicas vítreas como o dissilicato de lítio.

Zircónia: sem ácido fluorídrico, outro caminho

Como a zircónia não tem matriz vítrea, o tratamento de superfície assenta noutros dois pilares: jacto de partículas de óxido de alumínio, com granulometria de 30 a 50 micrómetros e baixa pressão — pressão excessiva pode iniciar uma transformação de fase na zircónia e fragilizar a peça —, seguido de um primer com o monómero 10-MDP, que cria ligação química estável entre o óxido de zircónio e o cimento resinoso.

A literatura é consistente num ponto: nenhum dos dois tratamentos isolado é suficiente. É a combinação — jacto mecânico mais primer MDP — que produz a resistência de união mais fiável, e cimentos resinosos que já contêm MDP na própria composição têm mostrado os melhores resultados nesta combinação.

Jacto de partículas de óxido de alumínio em restauração de zircónia antes da cimentação

Jacto de óxido de alumínio a baixa pressão — o primeiro dos dois passos que a zircónia exige antes do primer MDP.

Mesmo assim, vale ser honesto sobre uma limitação estrutural: a adesão à zircónia, mesmo com o protocolo optimizado de jacto e MDP, continua a ser comparativamente mais fraca e menos previsível do que a adesão às cerâmicas vítreas. Não é falha de execução — é a natureza policristalina do material, sem matriz vítrea para gerar retenção micromecânica real.

Uma técnica que temos vindo a usar para contornar esta limitação é aplicar, sobre a superfície interna da zircónia, uma camada muito fina de dissilicato de lítio — com sistemas como o LiSiConnect (Aidite) — antes da cimentação. Essa camada vítrea permite depois condicionar a superfície com ácido fluorídrico e silano exactamente como se fosse dissilicato de lítio puro, obtendo uma adesão muito mais previsível do que o protocolo padrão de jacto mais MDP isolado. É uma etapa extra, mas se a longevidade da coroa em zircónia é uma preocupação real do caso, compensa o tempo investido.

Aplicação de camada de dissilicato de lítio sobre zircónia com sistema LiSiConnect Aidite

Aplicação de uma camada fina de dissilicato de lítio sobre zircónia — permite condicionar a peça como cerâmica vítrea.

"Tratar a zircónia com o mesmo protocolo do dissilicato de lítio é a causa mais comum de descolagem que vemos em restaurações CAD/CAM — não é um problema de cimento, é um problema de superfície."

Resina impressa de alta carga: um protocolo ainda em consolidação

Antes de qualquer tratamento de superfície, o passo que mais se negligencia com resina impressa é seguir rigorosamente o pós-processamento indicado pelo fabricante — lavagem do excesso de resina não polimerizada e cura final completa. Peças insuficientemente curadas comprometem qualquer adesão posterior, independentemente do cimento escolhido.

Feito isso, o protocolo aproxima-se do da zircónia: jacto de partículas, seguido de silano e de um adesivo com MDP. A investigação mais recente mostra que o jacto de partículas por si só melhora a resistência de união de forma consistente, mas é a combinação com tratamentos químicos — silano e MDP — que optimiza o resultado. Vale a pena notar que resinas de base UDMA têm mostrado maior estabilidade após envelhecimento do que alternativas de base Bis-EMA, um factor a considerar na escolha do material, não apenas no protocolo de cimentação.

Como já referido a propósito da impressão 3D de resina de alta carga em restaurações de sessão única, a evidência de longevidade a longo prazo para este material ainda está a ser construída — e o mesmo se aplica ao protocolo de cimentação: é uma área activa de investigação, não um procedimento tão estabelecido como o do dissilicato de lítio.

E os compósitos híbridos fresados e a cerâmica feldspática?

Este artigo aprofunda três materiais, mas vale deixar claro que a lista não pára aqui — e a regra central mantém-se: cada material tem o seu próprio protocolo. A cerâmica feldspática, ainda usada sobretudo em facetas muito finas pela sua estética, condiciona-se com ácido fluorídrico durante cerca de 60 segundos — o triplo do tempo do dissilicato de lítio, apesar de ambas serem cerâmicas vítreas. Os compósitos híbridos fresados (blocos de resina infiltrada em cerâmica) toleram ácido fluorídrico a concentrações mais baixas, tipicamente por volta dos 10%, combinado com silano — um protocolo próprio, distinto tanto do dissilicato como da zircónia. Assumir que "é tudo cerâmica, o protocolo é igual" é precisamente o erro que este artigo quer evitar.

Isolamento e contaminação: o passo que ninguém vê no laboratório

Nenhum protocolo de superfície sobrevive a um preparo contaminado. O isolamento absoluto continua a ser a forma mais fiável de garantir um campo seco durante a cimentação — saliva ou fluido gengival na margem do preparo compromete a adesão de forma silenciosa, sem sinais visíveis no momento da consulta.

Isolamento absoluto com dique de borracha para cimentação adesiva de restauração

Isolamento absoluto com dique de borracha — a forma mais fiável de garantir um campo seco durante a cimentação.

Há ainda um ponto frequentemente esquecido: depois de uma prova clínica, a superfície interna da restauração fica contaminada com saliva ou com resíduos do material usado para verificar o ajuste. Antes da cimentação definitiva, essa superfície precisa de ser limpa novamente — jacto de partículas ou reaplicação de ácido fosfórico, consoante o material — como se fosse a primeira vez.

A remoção do excesso de cimento nas margens, sobretudo nas áreas proximais, merece o mesmo cuidado: cimento residual sub-gengival é uma das causas mais comuns de inflamação gengival persistente que, mais tarde, é erradamente atribuída a "descolagem" ou a cárie secundária.

Quando a margem está profunda ou subgengival e o dique de borracha não isola bem sozinho, vale a pena combinar com afastamento gengival mecânico ou químico antes da cimentação — em vez de aceitar um campo parcialmente húmido e confiar apenas na capacidade do adesivo para lidar com a contaminação. Um preparo bem isolado, mesmo que exija cinco minutos extra de afastamento de tecidos, custa sempre menos do que uma restauração recimentada.

As causas mais comuns de falha — e raramente é o material

Quando uma restauração CAD/CAM falha, a tentação é culpar o material. Na prática clínica, as causas mais frequentes são outras: aplicar o mesmo protocolo de superfície a materiais diferentes; contaminação do preparo ou da restauração depois da prova; incompatibilidade química entre um adesivo monocomponente autocondicionante e um cimento resinoso de dupla cura, que em alguns sistemas pode gerar índices elevados de sensibilidade pós-operatória e fracturas precoces; e excesso de cimento não removido nas margens.

A sensibilidade que aparece semanas depois da cimentação, sem uma causa clínica óbvia, tem quase sempre origem numa destas etapas — não no cimento em si, nem no material da restauração. Protocolos de selagem imediata da dentina (immediate dentin sealing) e adesivos autocondicionantes com maior carga têm mostrado reduzir esta ocorrência, sobretudo em preparos mais profundos.

Dominar o desenho no Exocad para inlays, onlays e facetas garante que a peça assenta correctamente na boca — mas é o protocolo de cimentação, específico para cada material, que decide se essa peça permanece lá.

Dúvidas frequentes

Posso usar o mesmo cimento para dissilicato de lítio e para zircónia?

Não é recomendável sem ajustar o tratamento de superfície. O dissilicato responde bem a ácido fluorídrico e silano; a zircónia não tem matriz vítrea para o ácido dissolver e depende de jacto de óxido de alumínio combinado com primer MDP. Um cimento com MDP na composição funciona bem nos dois casos, desde que o tratamento de superfície seja o correcto para cada material.

Cimento auto-adesivo ou cimento resinoso convencional?

Depende da espessura e da retenção do preparo. Preparos com boa retenção mecânica e restaurações mais espessas toleram bem cimentos auto-adesivos, mais simples e rápidos de aplicar. Preparos com pouca retenção ou peças finas e translúcidas beneficiam do protocolo mais exigente, mas mais previsível, de um cimento resinoso convencional com adesivo dedicado.

Porque aparece sensibilidade pós-operatória semanas depois da cimentação?

Na maioria dos casos, por microinfiltração marginal associada a isolamento inadequado durante a cimentação, ou por contaminação da superfície do preparo ou da restauração que não foi corrigida antes do passo definitivo — raramente é um problema do material em si.

A resina impressa de alta carga precisa de silano antes de cimentar?

Sim. O protocolo com melhores resultados combina jacto de partículas com aplicação de silano e de um adesivo contendo MDP, sempre depois de garantir que o pós-processamento da peça — lavagem e cura final — foi feito de acordo com as indicações do fabricante.

A zircónia adere sempre pior do que as outras cerâmicas? Há forma de melhorar isso?

Sim, é uma limitação real do material, não um erro de protocolo — a zircónia não tem matriz vítrea, pelo que a adesão nunca é tão previsível como a do dissilicato de lítio. Uma solução é aplicar sobre a superfície interna da peça uma camada fina de dissilicato de lítio, com sistemas como o LiSiConnect (Aidite), que depois se condiciona com ácido fluorídrico e silano como uma cerâmica vítrea normal — obtendo uma adesão significativamente mais previsível do que o protocolo padrão de jacto e MDP isolado.

Domine o fluxo digital do desenho à cimentação

O curso de Design Protésico Digital do IPS ensina o protocolo completo — desenho no Exocad, escolha de material e critérios que decidem o sucesso da restauração.