Fluxo Digital 9 min de leitura

Restaurações em Uma Só Sessão: Fresagem Chairside ou Resina Impressa de Alta Carga?

Por Dr. Elton Dias e Dra. Aline Calvete — Instituto Porto Smile

Restauração dentária concluída na mesma sessão através de fluxo digital chairside — scanner, desenho e fabrico no mesmo dia

O paciente senta-se de manhã com um dente preparado e sai à tarde com a restauração definitiva cimentada. Sem moldeira, sem provisório, sem segunda consulta. A pergunta que fica não é se isto é possível — já é, há mais de uma década, com fresagem chairside — mas se as resinas impressas de alta carga, que chegaram ao mercado com promessas de custo menor e fabrico mais rápido, já mudam a equação para coroas, pequenas pontes, inlays e onlays.

A resposta curta: depende do caso clínico, do volume da clínica e daquilo que se está disposto a pagar antecipadamente por velocidade. A resposta longa exige separar quatro variáveis que se confundem com frequência — viabilidade técnica, tempo de cadeira, preço e indicação clínica — e é isso que este artigo faz.

É possível? Sim, mas não da mesma forma nos dois fluxos

A fresagem chairside de dissilicato de lítio ou zircónia para restaurações em sessão única é uma tecnologia madura: scanner intraoral, desenho no Exocad, fresagem do bloco e, no caso da zircónia, sinterização acelerada em forno de alta velocidade — tudo dentro de uma única consulta, com décadas de dados clínicos a sustentar a indicação para coroas definitivas.

A impressão 3D de resina de alta carga é uma história diferente. As resinas nano-cerâmicas mais recentes já atingem valores de resistência à flexão que rivalizam com cerâmicas reforçadas, e a fracção de mercado que usa impressoras chairside já ultrapassa a que usa fresadoras em alguns mercados — mas maioritariamente para provisórios de longa duração, guias cirúrgicas e modelos, não ainda para coroas definitivas posteriores sujeitas a carga oclusal elevada. A evidência de longevidade a cinco ou dez anos, que existe para o dissilicato de lítio, ainda está a ser construída para estas resinas.

"A pergunta não é se a impressão 3D chega às restaurações definitivas — é que ainda não chegou a todas elas, e a diferença está na indicação, não na tecnologia."

Para os critérios técnicos de desenho que separam um inlay ou onlay bem-sucedido de um que não assenta na boca — espessura mínima por material, gap de cimento, compensação do raio da broca — consulte o artigo sobre desenho de inlays, onlays e facetas no Exocad.

Digitalização intraoral de preparo dentário para restauração em sessão única

O ponto de partida é sempre o mesmo nos dois fluxos: digitalização intraoral do preparo, sem moldeira nem tempo de espera do vazamento em gesso.

Tempo de cadeira: da digitalização à cimentação

Depois da digitalização e do desenho — etapa comum aos dois fluxos —, os caminhos separam-se. Uma coroa em dissilicato de lítio demora cerca de 25 a 30 minutos a cristalizar em forno após a fresagem; a zircónia, com fornos de sinterização acelerada, pode ficar pronta em tempo semelhante. Uma peça em resina impressa demora tipicamente 15 a 20 minutos a imprimir, mais o tempo de pós-cura e polimento — muitas vezes inferior ao ciclo de fresagem e cristalização, sobretudo quando a impressora processa várias peças em paralelo na mesma bandeja.

Na prática, para uma única coroa, a diferença de tempo entre os dois fluxos raramente é o factor decisivo. Torna-se relevante quando a clínica trabalha vários casos em simultâneo — aí a impressão 3D ganha vantagem clara, porque uma impressora processa múltiplas peças ao mesmo tempo, enquanto a fresadora processa um bloco de cada vez.

Fresadora chairside a fabricar coroa cerâmica a partir de bloco de dissilicato de lítio

Fresagem subtractiva de um bloco de dissilicato de lítio — o fluxo com o histórico clínico mais longo para coroas definitivas.

Preço: o investimento inicial pesa mais do que o custo por peça

É aqui que as duas tecnologias mais se distinguem. Um sistema de fresagem chairside completo — scanner, fresadora e forno — representa um investimento inicial elevado, tipicamente entre os 80 000 € e os 140 000 €, segundo referências internacionais do sector. Uma impressora 3D dedicada a uso dentário chairside custa uma fracção disso, entre 4 000 € e 20 000 €, consoante a resolução e a capacidade de produção.

O custo por peça inverte parcialmente esta lógica: os blocos de cerâmica para fresagem têm um custo unitário mais previsível e mais alto; a resina impressa tem custo por peça mais baixo, mas implica desperdício de material nos suportes de impressão e consumíveis de pós-processamento que nem sempre entram na conta inicial. Ao paciente, o preço final de uma coroa em sessão única — em qualquer dos dois fluxos — situa-se geralmente na mesma faixa das restaurações tradicionais equivalentes; a diferença de custo entre fresagem e impressão raramente se repercute directamente no preço cobrado, ficando sobretudo do lado da margem da clínica.

Material / fluxoResistência à flexãoIndicação actual
Resina impressa de alta carga100–230 MPaProvisórios de longa duração, pontes provisórias extensas, casos posteriores de carga moderada
Dissilicato de lítio (fresado)360–400 MPaCoroas unitárias definitivas, inlays e onlays posteriores
Zircónia translúcida (fresada)900–1200 MPaCoroas posteriores de alta carga oclusal, pontes definitivas

Valores de referência da literatura mais recente — consultar sempre a ficha técnica do material e do fabricante do bloco ou da resina antes de decidir a indicação clínica.

Vale a pena? Depende do volume, não da tecnologia em si

Numa clínica com poucas restaurações indirectas por mês, o investimento numa fresadora chairside completa raramente se amortiza dentro de um horizonte razoável — compensa mais digitalizar com scanner intraoral e enviar o ficheiro a um laboratório digital externo, mantendo o benefício da precisão digital sem o custo do equipamento de fabrico. Uma impressora 3D, com investimento inicial muito mais baixo, tem retorno acessível mesmo a volumes reduzidos, ainda que limitada, para já, às indicações onde já está validada clinicamente.

Numa clínica de alto volume — vários casos indirectos por semana —, o cálculo muda: o custo do equipamento dilui-se rapidamente, e a vantagem de entregar a restauração no mesmo dia, sem depender de laboratório externo, tem valor competitivo directo junto do paciente.

O ponto de equilíbrio raramente é uma conta simples de dividir o preço do equipamento pelo número de casos. Entram também a poupança em consultas de moldagem e entrega evitadas, o valor que o paciente atribui a sair com o tratamento concluído no mesmo dia, e o custo de oportunidade de ter a cadeira ocupada mais tempo por caso. Uma clínica que já digitaliza por rotina, mesmo sem fresar ou imprimir internamente, está mais perto de rentabilizar qualquer um dos dois investimentos do que uma que ainda trabalha só com moldagem convencional — o scanner intraoral é o activo que sustenta os dois fluxos, e é normalmente o primeiro a comprar.

Impressora 3D dentária a fabricar restauração em resina de alta carga para entrega na mesma sessão

Impressão aditiva de resina de alta carga — investimento inicial mais baixo e produção em paralelo de várias peças na mesma sessão.

Outras variáveis: estética, desenho e formação da equipa

A decisão não termina no material. A estética permanece um ponto forte do dissilicato de lítio pela translucidez natural; as resinas impressas evoluíram muito neste aspecto, mas a escolha de cor e efeitos ópticos ainda tem mais variação entre marcas do que nas cerâmicas estabelecidas. E, em qualquer dos fluxos, o desenho digital determina o resultado tanto quanto o material: parâmetros mal ajustados no Exocad — seja para compensar a broca da fresadora, seja para posicionar correctamente os suportes de impressão — produzem peças que não assentam, independentemente de o material escolhido ser tecnicamente superior. Para uma introdução ao software que sustenta os dois fluxos, veja o que é o Exocad e porque é a referência em prótese digital.

Investir num dos dois sistemas — ou nos dois — sem investir em formação específica de desenho digital é a forma mais comum de desperdiçar o potencial de qualquer um deles. A tecnologia entrega o que promete apenas quando quem a opera compreende os parâmetros que a fazem funcionar.

Na prática clínica, a decisão mais defensável hoje continua a separar por indicação, não por preferência de equipamento: fresagem para coroas posteriores definitivas de alta carga oclusal, onde o histórico de longevidade sustenta a confiança; impressão para provisórios de longa duração, pontes provisórias extensas antes de reabilitação implantar, e casos seleccionados de carga moderada, onde a rapidez e o custo mais baixo por peça pesam mais do que a margem adicional de resistência que a cerâmica oferece. À medida que a evidência de longevidade das resinas de alta carga se consolidar, é expectável que essa fronteira se desloque — mas, por agora, é essa a linha que separa uma decisão bem fundamentada de uma aposta.

Dúvidas frequentes

É seguro colocar uma coroa definitiva impressa em 3D no mesmo dia?

Para provisórios de longa duração e restaurações em dentes com carga oclusal moderada, sim — as resinas nano-cerâmicas actuais atingem resistência à flexão suficiente para essa indicação. Para coroas posteriores definitivas sujeitas a carga oclusal elevada, a evidência de longevidade a longo prazo ainda é mais recente do que a da cerâmica fresada, pelo que a decisão deve ponderar o caso clínico, não apenas a possibilidade técnica.

Qual sistema tem melhor retorno numa clínica de baixo volume?

Numa clínica com poucas restaurações indirectas por mês, o investimento numa fresadora chairside completa raramente se amortiza — compensa mais digitalizar com scanner intraoral e enviar o ficheiro a um laboratório digital ou fresar por outsourcing. Uma impressora 3D dedicada, com investimento inicial muito mais baixo, tem retorno mais acessível mesmo a volumes reduzidos.

A resina impressa substitui a cerâmica fresada nos casos posteriores?

Ainda não de forma generalizada. Para coroas posteriores unitárias com carga oclusal elevada, o dissilicato de lítio e a zircónia mantêm-se como referência pela resistência à flexão superior e pelo histórico clínico mais longo. A resina impressa de alta carga já é uma alternativa sólida para provisórios de longa duração, pontes provisórias extensas e casos seleccionados de carga moderada.

Preciso de formação específica para desenhar peças para os dois fluxos?

Sim. O desenho no Exocad para fresagem e para impressão exige parâmetros diferentes — espessuras mínimas, compensação da broca ou definição de suportes de impressão. Sem essa formação específica, o risco de peças que não assentam ou que fracturam aumenta em ambos os fluxos.

Domine o desenho digital para os dois fluxos

O curso de Design Protésico Digital do IPS ensina os parâmetros de desenho no Exocad para fresagem e impressão — da espessura mínima ao posicionamento de suportes.