O consultório digitaliza, o laboratório desenha, a fresadora ou a impressora fabrica — e depois, numa etapa que dura poucos minutos e recebe uma fracção do tempo de planeamento, é feita a cimentação adesiva da restauração. É aqui, não no desenho nem na escolha do material, que acontece a maioria das falhas em restaurações CAD/CAM: descolagens que surgem semanas depois, sensibilidade pós-operatória sem causa aparente, restaurações que "não pegaram" apesar de um ajuste marginal perfeito.
O erro mais comum em cimentação adesiva não é escolher o cimento errado — é usar o mesmo protocolo para materiais com química de superfície completamente diferente. Dissilicato de lítio, zircónia e resina impressa de alta carga exigem tratamentos distintos, e tratar todos da mesma forma é a explicação mais frequente por trás de insucessos que, à primeira vista, parecem não ter relação óbvia com o passo que realmente falhou.
Porque é que o protocolo depende do material
O dissilicato de lítio tem um teor de sílica entre 50 e 60% — uma matriz vítrea que o ácido fluorídrico dissolve, criando microporosidades que permitem retenção micromecânica ao cimento resinoso. A zircónia tem menos de 1% de sílica: não tem matriz vítrea para o ácido dissolver, pelo que o ácido fluorídrico simplesmente não funciona nela. A resina impressa de alta carga é uma terceira química — uma matriz polimérica reticulada que não responde a nenhum dos dois tratamentos da mesma forma, e cujo protocolo de adesão ainda está a consolidar-se na literatura.
Tratar os três materiais com o mesmo protocolo — normalmente o que a equipa já domina de um deles — é a causa mais comum de descolagem que se vê em restaurações CAD/CAM. Não é um problema de cimento, é um problema de superfície.
Vale notar que esta decisão começa antes da restauração chegar à clínica: quando o desenho é planeado em fluxo digital com o laboratório, o material já fica definido na fase de proposta, o que permite preparar com antecedência o protocolo de cimentação correcto em vez de o decidir apressadamente no dia da entrega.
Dissilicato de lítio: o protocolo estabelecido
Na superfície interna da restauração: ácido fluorídrico a 5–9% durante cerca de 20 segundos, lavagem abundante com água, secagem, e aplicação de silano durante cerca de 60 segundos, deixando o solvente evaporar por completo antes de cimentar. No dente, o condicionamento é feito com ácido fosfórico a 37% — 15 segundos em dentina, 30 segundos em esmalte —, seguido de lavagem e secagem controlada, sem desidratar a dentina.
A escolha entre cimento fotopolimerizável e dual depende essencialmente da espessura e da opacidade da peça: peças finas e translúcidas cimentam bem com fotopolimerizável puro, que oferece maior estabilidade de cor a longo prazo; peças mais espessas ou opacas exigem um cimento dual para garantir polimerização completa nas zonas que a luz não alcança bem.
Ácido fluorídrico a 5% seguido de silano — o protocolo estabelecido para cerâmicas vítreas como o dissilicato de lítio.
Zircónia: sem ácido fluorídrico, outro caminho
Como a zircónia não tem matriz vítrea, o tratamento de superfície assenta noutros dois pilares: jacto de partículas de óxido de alumínio, com granulometria de 30 a 50 micrómetros e baixa pressão — pressão excessiva pode iniciar uma transformação de fase na zircónia e fragilizar a peça —, seguido de um primer com o monómero 10-MDP, que cria ligação química estável entre o óxido de zircónio e o cimento resinoso.
A literatura é consistente num ponto: nenhum dos dois tratamentos isolado é suficiente. É a combinação — jacto mecânico mais primer MDP — que produz a resistência de união mais fiável, e cimentos resinosos que já contêm MDP na própria composição têm mostrado os melhores resultados nesta combinação.
Jacto de óxido de alumínio a baixa pressão — o primeiro dos dois passos que a zircónia exige antes do primer MDP.
Mesmo assim, vale ser honesto sobre uma limitação estrutural: a adesão à zircónia, mesmo com o protocolo optimizado de jacto e MDP, continua a ser comparativamente mais fraca e menos previsível do que a adesão às cerâmicas vítreas. Não é falha de execução — é a natureza policristalina do material, sem matriz vítrea para gerar retenção micromecânica real.
Uma técnica que temos vindo a usar para contornar esta limitação é aplicar, sobre a superfície interna da zircónia, uma camada muito fina de dissilicato de lítio — com sistemas como o LiSiConnect (Aidite) — antes da cimentação. Essa camada vítrea permite depois condicionar a superfície com ácido fluorídrico e silano exactamente como se fosse dissilicato de lítio puro, obtendo uma adesão muito mais previsível do que o protocolo padrão de jacto mais MDP isolado. É uma etapa extra, mas se a longevidade da coroa em zircónia é uma preocupação real do caso, compensa o tempo investido.
Aplicação de uma camada fina de dissilicato de lítio sobre zircónia — permite condicionar a peça como cerâmica vítrea.
Resina impressa de alta carga: um protocolo ainda em consolidação
Antes de qualquer tratamento de superfície, o passo que mais se negligencia com resina impressa é seguir rigorosamente o pós-processamento indicado pelo fabricante — lavagem do excesso de resina não polimerizada e cura final completa. Peças insuficientemente curadas comprometem qualquer adesão posterior, independentemente do cimento escolhido.
Feito isso, o protocolo aproxima-se do da zircónia: jacto de partículas, seguido de silano e de um adesivo com MDP. A investigação mais recente mostra que o jacto de partículas por si só melhora a resistência de união de forma consistente, mas é a combinação com tratamentos químicos — silano e MDP — que optimiza o resultado. Vale a pena notar que resinas de base UDMA têm mostrado maior estabilidade após envelhecimento do que alternativas de base Bis-EMA, um factor a considerar na escolha do material, não apenas no protocolo de cimentação.
Como já referido a propósito da impressão 3D de resina de alta carga em restaurações de sessão única, a evidência de longevidade a longo prazo para este material ainda está a ser construída — e o mesmo se aplica ao protocolo de cimentação: é uma área activa de investigação, não um procedimento tão estabelecido como o do dissilicato de lítio.
E os compósitos híbridos fresados e a cerâmica feldspática?
Este artigo aprofunda três materiais, mas vale deixar claro que a lista não pára aqui — e a regra central mantém-se: cada material tem o seu próprio protocolo. A cerâmica feldspática, ainda usada sobretudo em facetas muito finas pela sua estética, condiciona-se com ácido fluorídrico durante cerca de 60 segundos — o triplo do tempo do dissilicato de lítio, apesar de ambas serem cerâmicas vítreas. Os compósitos híbridos fresados (blocos de resina infiltrada em cerâmica) toleram ácido fluorídrico a concentrações mais baixas, tipicamente por volta dos 10%, combinado com silano — um protocolo próprio, distinto tanto do dissilicato como da zircónia. Assumir que "é tudo cerâmica, o protocolo é igual" é precisamente o erro que este artigo quer evitar.
Isolamento e contaminação: o passo que ninguém vê no laboratório
Nenhum protocolo de superfície sobrevive a um preparo contaminado. O isolamento absoluto continua a ser a forma mais fiável de garantir um campo seco durante a cimentação — saliva ou fluido gengival na margem do preparo compromete a adesão de forma silenciosa, sem sinais visíveis no momento da consulta.
Isolamento absoluto com dique de borracha — a forma mais fiável de garantir um campo seco durante a cimentação.
Há ainda um ponto frequentemente esquecido: depois de uma prova clínica, a superfície interna da restauração fica contaminada com saliva ou com resíduos do material usado para verificar o ajuste. Antes da cimentação definitiva, essa superfície precisa de ser limpa novamente — jacto de partículas ou reaplicação de ácido fosfórico, consoante o material — como se fosse a primeira vez.
A remoção do excesso de cimento nas margens, sobretudo nas áreas proximais, merece o mesmo cuidado: cimento residual sub-gengival é uma das causas mais comuns de inflamação gengival persistente que, mais tarde, é erradamente atribuída a "descolagem" ou a cárie secundária.
Quando a margem está profunda ou subgengival e o dique de borracha não isola bem sozinho, vale a pena combinar com afastamento gengival mecânico ou químico antes da cimentação — em vez de aceitar um campo parcialmente húmido e confiar apenas na capacidade do adesivo para lidar com a contaminação. Um preparo bem isolado, mesmo que exija cinco minutos extra de afastamento de tecidos, custa sempre menos do que uma restauração recimentada.
As causas mais comuns de falha — e raramente é o material
Quando uma restauração CAD/CAM falha, a tentação é culpar o material. Na prática clínica, as causas mais frequentes são outras: aplicar o mesmo protocolo de superfície a materiais diferentes; contaminação do preparo ou da restauração depois da prova; incompatibilidade química entre um adesivo monocomponente autocondicionante e um cimento resinoso de dupla cura, que em alguns sistemas pode gerar índices elevados de sensibilidade pós-operatória e fracturas precoces; e excesso de cimento não removido nas margens.
A sensibilidade que aparece semanas depois da cimentação, sem uma causa clínica óbvia, tem quase sempre origem numa destas etapas — não no cimento em si, nem no material da restauração. Protocolos de selagem imediata da dentina (immediate dentin sealing) e adesivos autocondicionantes com maior carga têm mostrado reduzir esta ocorrência, sobretudo em preparos mais profundos.
Dominar o desenho no Exocad para inlays, onlays e facetas garante que a peça assenta correctamente na boca — mas é o protocolo de cimentação, específico para cada material, que decide se essa peça permanece lá.